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De Sedentário a Maratonista

A motivação também se treina!

Qua | 29.05.13

Correr na Madeira, a ilha de Neptuno

José Guimarães
  Conta a lenda que, um dia, Neptuno (o deus do mar) resolveu agarrar num punhado de terra, juntou-lhe uma mão cheia de sal e pôs-se a brincar aos castelos (tal como fazemos na areia da praia, quando somos crianças). Assim formou a ilha da Madeira, um jardim florido, cheio de escarpas abruptas, nascido no oceano Atlântico, que eu e quase 500 pessoas tiveram o prazer de conhecer de uma forma diferente e muito próxima: a correr!

O que é o Madeira Island Ultra Trail

MIUT 2013Conhecido no mundo das corridas por MIUT, o Madeira Island Ultra Trail é uma prova de trail running que consiste em atravessar a ilha da Madeira de uma ponta à outra a correr. Tão “simples” como isto. Começando na zona de Porto Moniz, conhecida pelas suas piscinas naturais, a prova termina em Machico, 115 quilómetros depois. Claro que para “apimentar” a coisa, a organização não facilita muito o percurso, delineando-o ao longo de algumas das mais tortuosas e épicas paisagens da ilha, com direito a um pouco de tudo: subidas íngremes, escadarias intermináveis, declives verdadeiramente a pique (quem tenha vertigens, abstenha-se), zigue-zagues no meio da floresta laurissilva, mas também cenários deslumbrantes. Ouso mesmo dizer que as paisagens que encontrei na ilha da Madeira estão ao nível das mais bonitas paisagens do mundo!

Corrida e amigos

Já é conhecido o espírito de companheirismo de que se reveste o trail running. E quanto mais pratico esta modalidade, mais me convenço que este é o espírito que pretendo viver e transportar para outros desportos e mesmo para a vida do dia-a-dia. Já muito antes de partir de Lisboa, que os preparativos para tamanha epopeia deixavam a pairar no ar alguma ansiedade. Algo perfeitamente natural neste tipo de coisas. Seja pelas previsões sobre como correr tamanha distância, como pelo planeamento do equipamento e da alimentação necessários, seja mesmo pela tentativa de adivinhar o que nos espera num cenário totalmente novo, correr mais de 100 quilómetros pode não ser uma experiência nova para alguns, mas correr mais de 100 quilómetros num local como a ilha da Madeira traz à superfície muitas variáveis que poucos sabem como controlar. No entanto, quando estamos entre amigos, as coisas têm sempre mais possibilidades de correr bem. E mesmo que no início a maior parte dos participantes sejam perfeitos desconhecidos, cedo este espírito que se vive no trail nos torna a todos membros de uma grande família. Aqui tenho que deixar uma nota para o meu companheiro de corrida, o Miguel, com quem tive o privilégio de partilhar esta prova durante mais de 27 horas. Não é fácil para ninguém fazer uma corrida deste tipo, pelo que encontrar um bom companheiro faz com seja mais fácil ultrapassar pelo menos metade das dificuldades. E falo tanto das físicas como (principalmente) das psicológicas. A ti Miguel, o meu muito obrigado e… respect!

A dificuldade das subidas

[caption id="attachment_3918" align="alignleft" width="150"]MIUT 2013 Estanquinhos Início da subida para Estanquinhos[/caption] Uma das maiores dificuldades para se ultrapassar nesta prova são as subidas. Desde que chegamos à ilha da Madeira formatados para correr, que não vemos outra coisa à nossa volta que não sejam as paisagens formadas por verdadeiras paredes de alturas intermináveis. E mesmo no local da partida – Porto Moniz – enquanto esperamos pela hora “H”, podemos observar bem uma dessas "paredes", a primeira subida. Como se ela lá estivesse para nos dar as boas vindas ao MIUT. Porto Moniz fica virado para o mar e rodeado a quase toda a sua volta por uma elevação de quase 400m de altitude. Logo após a partida somos brindados com essa primeira subida. Um pequeno teste feito em estrada e pelas veredas acima, quase sempre em bicos dos pés, tal era a inclinação. Esta era primeira de muitas subidas que iríamos encontrar no caminho… mal sabíamos que era uma das mais simples. Passados pouco mais de 20 km de prova e depois de já termos enfrentado uma outra subida até acima dos 1.000m de altitude, enfrentávamos agora a subida que vai de Chão da Ribeira até Estanquinhos. Embora ainda estivéssemos "frescos", esta talvez tenha sido uma das mais agressivas de toda a prova, pois em pouco mais de 4km de percurso subimos 1.200m de desnível positivo (D+). Não me recordo do tempo que demorámos para cumprir este trajeto, mas sem dúvida que foram os 4 km mais lentos de toda a minha vida. E passaram tão lentamente, que chegámos com 7 horas de prova ao posto de controle, quando o mesmo fechava 7h30 depois da partida. Impressionante o tempo que havíamos “queimado” neste trajeto! Mas estava cumprido o primeiro “quilómetro vertical” do MIUT. E ainda haviam mais pela frente.

Mais subidas… e também descidas

Como tudo o que sobe tem que descer, depois da grande subida até Estanquinhos enfrentávamos agora a equivalente (e grande) descida. Se as subidas podem ser terríveis em determinados aspetos, para mim as descidas revelam-se bem piores para as pernas, principalmente em longas distâncias. A meio da descida, eu e o Miguel, em perfeita sintonia pensamos e dizemos um ao outro: “Sabes que se agora continuamos assim, mais logo vamos pagar bem caro por isto, não sabes?” Ambos tínhamos noção que estávamos a abusar um pouco naquele troço, mas numa descida tão divertida e longa quanto esta, tornava-se difícil não a aproveitar. Afinal estávamos ali também para nos divertirmos, certo? Mas também tínhamos noção do muito que ainda tínhamos pela frente e, com pouco mais de 30 km de prova decorridos, não nos podíamos dar ao luxo de estourar já as pernas só porque nos apetecia ter alguma diversão. Até ver, as coisas estavam a correr bem e para continuarmos assim teríamos que saber gerir o esforço até ao fim. Portanto refreámos o ritmo. [caption id="attachment_3920" align="alignright" width="150"]MIUT 2013 Curral das Freiras Curral das Freiras[/caption] Outra grande subida igualmente agressiva esperava-nos depois do posto de abastecimento do Curral das Freiras (km 60). Esta aldeia fica situada num vale a pouco mais de 600m de altitude e está completamente cercada por montanhas. Para sair daqui, a única hipótese é mesmo subir. E a nossa próxima etapa tinha como objetivo atingir o Pico Ruivo, a 1.861m de altitude. Estou a falar, portanto, de mais outro “quilómetro vertical”. A juntar à dificuldade da subida, há que salientar o fator psicológico que foi totalmente posto à prova, já que subíamos, subíamos, mas parecia que estávamos a ser levados cada vez para mais longe do ponto que queríamos atingir. O que eu me lembrei do UTSM e da “conquista” do castelo de Marvão. [caption id="attachment_3916" align="alignleft" width="150"]MIUT 2013 - Pico Ruivo Pico Ruivo[/caption]

Progredir lentamente, mas progredir

Numa altimetria total que nos falava em mais de 6.600m D+, aos 75 km estávamos no Pico do Areeiro, um dos pontos mais altos da prova (quase 1.900m de altitude), onde o Samuel nos esperava com a família, para nos apoiar... ok, e para nos retemperar a alma com um potente café e uns biscoitos de mel caseiros. Ah! E uns Cheetos aos quais não consegui resistir! Impressionante a quantidade de coisas supostamente "más" que nos sabem tão bem nestes momentos de autêntico apetite! E bem precisávamos destes mimos, pois partir daqui a tortura viria de outras formas e feitios (literalmente). Apesar de já não termos tanto desnível positivo para fazer, o cansaço acumulava-se e fazia-se sentir agora nas pernas, nos pés doridos e no feitio (bom e mau) de cada um. As descidas intermináveis e os pisos instáveis (que nos massacravam as pernas e pés), acompanhados pelo início da segunda noite, agora com chuva e frio, causavam muito desconforto físico adicional e foram nesta fase o verdadeiro teste de auto-superação. Mesmo com jogos mentais, pensamentos positivos e conversas para distrair a mente, conseguir correr eficazmente a partir de uma certa fase é um pouco como nadar numa piscina cheia de gelatina... nunca o fiz, mas deve ser difícil à brava! Nesta última parte da prova a maior dificuldade foi, sem dúvida, progredir, ou, como quem diz em linguagem menos técnica, conseguir ver os quilómetros passar. Como os nossos GPS já tinham ficado sem bateria há muitas horas atrás (mesmo assim o meu aguentou-se 11 horas), a única referência que tínhamos além da hora do dia eram as indicações que conseguíamos obter nos pontos de controle e nos abastecimentos. Nesta fase, cada quilómetro de prova parecia equivaler a um treino de 10 km. Progredir de novo no escuro e com o sentido de orientação completamente “torrado“ é das piores sensações por que já passei a correr. Vale-nos a companhia, dos amigos e dos outros atletas com quem nos juntamos ao longo da prova e com quem partilhamos uns olhares de cúmplice sofrimento, mas quase sempre com um sorriso no rosto. Os últimos quilómetros da corrida devem ter sido a maior provação por que já passei nas poucas provas longas que já fiz. Às páginas tantas creio que corri umas dezenas de minutos em completo silêncio, dentes cerrados, sem articular uma palavra, irritado com a progressão lentíssima que tínhamos. Mesmo com Machico já à vista lá ao fundo, as fitas pareciam teimar em nos levar cada vez para mais longe. Aquela última levada parecia não ter fim e a descida através de um campo povoado de cabras (à noite garanto-vos que são uma visão ímpar) faziam-nos sentir como se escoássemos rapidamente as últimas gotas de força que ainda resistiam. Mas claro, vindas não sei bem de onde, lá aparecem novamente as pernas. Aquelas que nos conseguem levar nas últimas centenas de metros a correr. Primeiro apareceram quando vimos as caras conhecidas do Samuel e da Inês à nossa espera à entrada do túnel de acesso a Machico. Depois, nas últimas dezenas de metros antes da meta, quando de repente parece que não há dores, não há cansaço, só há mesmo aquela vontade de cortar a meta e dizer “conseguimos!”… e não é que conseguimos mesmo?

“Ao lado do teu amigo, nenhum caminho será longo”

Tal como é quase impossível captar a essência de uma bonita paisagem com uma simples máquina fotográfica, reconheço que o turbilhão de emoções que ainda guardo dentro de mim sobre esta prova me impede de fazer descrições muito pormenorizadas. Se me perguntarem diretamente alguma coisa, prometo responder a tudo, mas para já isto é o que consigo descrever. Contudo quero concluir este longo e incompleto relato, constatando cientificamente e com a ajuda da tabela de tempos finais o tal espírito de camaradagem e companheirismo que falei há uns parágrafos atrás e que parece estar bem patente em todos os atletas. Senão abram o link e reparem só nos grupos que cortam a meta com os tempos quase iguais. Como diz um antigo provérbio japonês: “Ao lado do teu amigo, nenhum caminho será longo”. Eu e o Miguel enfrentámos esta prova e garanto-vos que nos sentimos verdadeiramente abençoados por cada quilómetro e cada momento que nela passámos juntos. Outros atletas, como o Zé Carlos, o Edgar (que nos acompanhou durante algumas horas), o Miguel, o João, o Rui, a Inês e tantos outros, à sua maneira terão com certeza vivido a sua experiência. Só por isso, a todos eles tiro o chapéu pela coragem que tiveram em enfrentar este tipo de desafio, em situações que só cada um sabe. Aos que não puderam estar presentes, garanto-vos que estiveram bem presentes em pensamento. Finalmente, mais que uma simples corrida, posso afirmar sem qualquer dúvida que participar no MIUT foi, pelo menos para mim, uma verdadeira experiência. Uma daquelas experiências que ficam e que se querem repetir um dia mais tarde. Para já voltamos aos treinos, sempre com os próximos objetivos em mente… e eu com saudades que certamente me farão regressar. Fica prometido!  

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